Feridas da Alma


Todas as experiências vividas por nós ao longo do nosso existir não se perdem. Tanto as agradáveis, quanto as dolorosas ficam registradas em nossa estrutura psíquica. Graças ao mecanismo de introjeção elas se imprimem dentro de nós, constituindo o tecido da nossa personalidade. As vivências agradáveis são arquivadas com prazer, como se fora um pedaço de doce comido com satisfação, e sempre bem lembrado.
Mas, ao longo do viver, boa parte das experiências contém algum nível de sofrimento, algum nível de dor. Muitas delas deixam feridas profundas.
Cada experiência dolorosa é arquivada com toda a carga de ira, de ódio, de revolta, de sentimento de vingança sentidos no momento da ocorrência do fato, e assim permanece dentro da pessoa. Se tal lembrança não for tratada adequadamente o resultado será amargura, apodrecimento emocional, ausência de paz no coração e o surgimento de enfermidades diversas.
A Bíblia fala sobre Ana, uma mulher que embora amada pelo marido Elcana, tinha a alma muito enferma. Ana era estéril e, por este motivo, carregava sobre si o estigma da maldição, e a angústia de não poder gerar filhos que perpetuassem o nome do esposo.
Penina, a outra esposa que Elcana tomara a fim de procriar, houvera lhe dado filhos e filhas, o que a fazia sentir-se superior a Ana. Cada vez que Elcana levava toda a família ao lugar da adoração a Deus, Penina aproveitava a oportunidade para agredir a Ana com palavras de provocação que a irritavam e a humilhavam. Este era o momento de grande sofrimento, de ira e amargura para Ana, por força das provocações da Penina. Ao invés de adorar a Deus, Ana só conseguia chorar, não comer, e enfermar, até ao dia em que ela entendeu como vencer os seus sofrimentos. Numa manhã, Ana foi ao lugar da adoração a Deus, e abrindo o coração diante do Senhor, chorou toda a sua dor, contou-lhe da aflição, falou-lhe das mazelas de sua vida, e fez-lhe um pedido e um voto. Ana estava diante do maior psicólogo do mundo. Ali, diante de Deus, o Médico dos médicos, ela abriu totalmente a sua alma ferida, e com sinceridade expôs todo seu sofrimento.
Sobre este fato a Bíblia diz: “... levantou-se Ana e, com amargura de alma, orou ao Senhor, e chorou abundantemente. E fez um voto, dizendo: ‘Senhor dos Exércitos, se benignamente atentares para a aflição da tua serva, e de mim te lembrares, e da tua serva te não esqueceres, e lhe deres um filho varão, ao Senhor o darei por todos os dias da sua vida, e sobre a sua cabeça não passará navalha ...’”(1Sm.1:10,11).
Ao derramar a sua alma perante o Senhor, Ana foi transformada de uma mulher triste e estéril, em uma mulher alegre e fértil, porque tratou as feridas da alma com o Psicólogo por excelência, o Deus Eterno.
A vitória veio quando Ana rasgou o coração e lançou o seu fardo sobre o Senhor. Ana elegeu a Deus como o terapeuta com quem compartilhar seu sofrimento, e em seu encontro terapêutico não escondeu nada, compartilhou tudo com intensidade, recebeu a palavra da bênção, e a bênção de ter gerado a Samuel e a mais cinco filhos. Agora, sarada na alma e no corpo, Ana tornou-se uma mulher realizada.
As vivências dolorosas quando armazenadas sem tratamento nos apodrecem, mas quando compartilhas e tratadas, nos fazem cheios de saúde e vida.
Ana nos dá o exemplo de como tratar das feridas arquivadas.
À semelhança de qualquer tratamento, a cura das memórias passa por um processo que precisa ser vivenciado em todas as suas etapas. Quero lhes apresentar cinco etapas que são básicas no processo de cura da alma ferida.
Primeiro: Entrar em contato com as lembranças armazenadas dentro de nós e que nos fazem sofrer.
Através do mecanismo de conscientização trazer ao campo do consciente em forma de lembranças, registros que estejam arquivados causando a dor, e que precisam ser tratados.
No momento em que a lembrança aflorar ela virá com toda a carga emocional e mental com a qual foi internalizada, o que poderá provocar choro, angústia, expressões de ódio e a renovação do sentimento de vingança. É a atualização da dor que estava armazenada.
Jesus sabiamente declarou: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. Com esta afirmativa Ele estava dizendo que além de entrarmos em contato com Ele, também precisamos entrar em contato com a verdade do nosso estado interior, se quisermos ser tratados naquilo que nos enferma.
Só haverá cura na alma ferida se entrarmos em contato com as lembranças que nos atormentam; se tais lembranças aflorarem ao campo do consciente.
A segunda etapa do processo de cura consiste na verbalização do sofrimento.
Estando a lembrança de algum fato doloroso aflorada ao consciente é preciso que se lide com ela através de palavras. Se estiver diante de um terapeuta de confiança é conversar com ele rasgando o coração, e seguir o caminho que ele sugerir, se entender viável. Mas, se estiver sozinho diante de Deus, é o momento de rasgar o coração, e imaginando que o ofensor está presente ali, dizer a ele tudo o que está contido na alma, aquilo que sempre quis dizer e não disse. É como fazer vômito para livrar-se de um alimento que está apodrecido no estômago causando mal estar. Quando se abre o coração em palavras externando todo o mal causado, se vomita o veneno que está dentro. Esta conversa com o ofensor que se imagina presente ali, deve ser audível, dizendo o nome dele.
Nada deve ficar sem ser declarado. O quanto estiver em nós de sofrimento precisa ser externado. Com certeza, a dor da ofensa fará chorar profundamente. É importante que se chore a dor, mas que se trate das velhas pendências. É preciso chorar a dor plenamente, até esgotá-la. O choro libertador se dá no momento em que a ferida amarga está sendo tocada, vasculhada em sua purulência e exposta, a fim de que cura venha a se estabelecer. Mas, chorar a dor somente por chorar mais uma vez, não resolve nada. Este choro profundo e doído deve ser seguido de outras atitudes curativas.
A terceira etapa do processo de tratamento das feridas emocionais é a liberação de perdão ao ofensor, dizendo o nome dele, e qual o motivo pelo qual ele está sendo perdoado.
Este momento precioso tem a Deus como a testemunha da concessão do perdão. Sem perdão não há cura para as feridas da alma.
Qualquer choro ou conversa sobre as dores emocionais que não se faça seguir da declaração verdadeira de perdão ao ofensor, não passa de um lamento murmurante e doentio. A saúde das lembranças dolorosas só acontece quando o perdão é concedido.
O centro da cura da alma ferida é a concessão de perdão a cada ofensor.
Ao declararmos perdão nos desligamos daqueles a quem estávamos amarrados através das lembranças dolorosas arquivadas na estrutura psíquica. Ao perdoarmos estamos dando a Deus a chance de nos perdoar e de perdoar também àquele que nos violentou.
Ao perdoar nós assumimos o ônus do prejuízo, mas nos libertamos do domínio das emoções negativas e do governo dos seres espirituais do mal, além de darmos ao ofensor a chance de ser tratado por Deus.
Quando, depois de termos perdoado a alguém nos lembrarmos do fato ocorrido devemos sempre renovar a nossa declaração de perdão. Esta é a maneira de cristalizarmos o perdão dentro de nós mais e mais. Aquele que perdoa se lembra do fato sem dor, porque o perdão remove a dor da lembrança.
A quarta etapa do processo de cura consiste em reconhecer que também está em erro por permanecer magoado e ressentido, e pedir perdão a Deus por isto, e se entender viável, procurar o ofensor e tratar da questão sem agressividade declarando a ele o seu perdão.
A pessoa ferida geralmente entende ter direito à desforra. Mas Deus não nos deu tal direito, por não sermos o Justo Juiz. Pedir perdão a Deus por se ter ficado magoado é reconhecer quem se está errado para com a Palavra de Deus, a qual nos manda amar aos inimigos, fazer o bem aos que nos amaldiçoam, e orar pelos que nos caluniam.
Em Quinto lugar render graças a Deus pela vitória da retirada dos defuntos emocionais. É o momento da exaltação a Deus por nos ter capacitado a entender seu ensino e a praticá-lo.
Quando perdoamos a alguém que nos feriu há o fluir da graça de Deus em nossa vida; um fardo é retirado, e a vida e a paz se estabelecem em nosso coração com grande regozijo.
É grande vitória vencer as cargas pesadas do ressentimento, do adio e da vingança. O louvor a Deus pela vitória deve ser bem maior do que a dimensão da dor sentida na alma.
Livre-se do fardo da mágoa e viva feliz.

Paz e Graça!


Rubem Cavalcante
http://comunidadedodeusvivoconquista.blogspot.com.br/
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