Vítimas de líderes abusivos (Parte I)


Muitos são vítimas do abuso espiritual e não percebem isto enquanto o líder abusivo está se aproveitando deles. Finalmente, a fé e a auto-estima dos seguidores acabam sendo muito feridas. O autor nos dá dicas para o aconselhamento de vítimas deste tipo de abuso espiritual; nos apresenta as características do líder abusivo e sua vítima, e as etapas do abuso.

Como aconselhar pessoas abusadas por autoridades espirituais
Faz alguns anos, o líder de um ministério cristão me disse: «Esta noite tive uma visita especial de Deus. Ele me disse que deves unir-te a meu ministério». Nesta noite passaram por minha mente todo tipo de pergunta. Porque o Senhor não me disse isto... em forma direta? Porque me pediria fazer algo que eu não gostava? E... porque não se revelou a mim na mesma forma que havia feito com esta pessoa?
Pouco depois fiquei sabendo que o ministério desta pessoa tinha se desintegrado. No processo, muitos tinham sido machucados ou, inclusive, recrutados, utilizando a mesma história que tinha sido usada comigo.
O abuso da autoridade espiritual acontece quando um líder - alegando que tem um chamado específico de Deus – se aproveita pessoalmente da lealdade de seus seguidores. Ao confiar no líder, eles se tornam vítimas que terminam sendo usados para um fim egoísta. Desta maneira, a fé e a auto-estima dos seguidores acabam sendo machucadas no final.
O conceito de abuso de autoridade espiritual
O abuso de autoridade espiritual ocorre quando um líder - alegando ter um mandato específico de Deus - utiliza isto para manipular ou tomar vantagem de seus seguidores, a fim de satisfazer interesses pessoais.
Os crentes são chamados a pôr as autoridades espirituais em alta estimação, como representantes de Deus. A Bíblia sublinha a importância de obedecer e respeitar às autoridades designadas por Deus. Por exemplo, quando Davi teve uma oportunidade de desafiar a autoridade do rei Saul, não o fez porque o considerou uma autoridade eleita por Deus.
Quando uma pessoa tem sido chamada por Deus a um ministério de liderança espiritual, o perigo começa quando o líder se embriaga de poder e, distorcendo este chamado, utiliza-o de uma maneira egoísta. Os seguidores começam a esforçar-se com o objetivo de satisfazer os interesses pessoais do seu líder, tais como poder, popularidade, riquezas, etc.
Características de um líder abusivo
Alguns dos seguintes critérios podem ser aplicados a um líder espiritual abusivo:
• Disse ter um relacionamento com Deus único e especial.
• Disse ter algum tipo especial de comunicação com Deus.
• Faz os seus seguidores crerem que ao fazerem algo por ele, estão servindo a Deus em forma especial.
• Convence os seus seguidores de que se eles o abandonarem algum dia – a ele ou ao seu ministério -estariam traindo ao próprio Deus.
• Persuade os seus seguidores que enquanto estiverem servindo a ele, seus seguidores têm um ministério único, e que não há lugar para eles em outra área de serviço.
• Convence os seus seguidores de que ele recebe revelações específicas sobre a vida particular deles.
• Esforça-se em ter controle sobre todas as áreas da vida de seus seguidores.
• Interessa-se por qualquer informação particular de seus seguidores, especialmente seus pecados ou erros.
• Não delega a seus subordinados a faculdade de tomar decisões maiores.
• Pede sacrifícios que ele mesmo não esteja preparado a fazer.
• Faz compromissos econômicos unilaterais que põe em risco a estabilidade financeira do ministério.
• Fica lembrando aos seus seguidores os sacrifícios que ele faz para servir no ministério.
• É crítico de outros líderes e ministérios.
• Descreve-se a si mesmo como um líder exigente mas muito tolerante ao mesmo tempo.
• Exagera seus êxitos ministeriais.
• Faz os seus seguidores crerem que eles não estão se sacrificando o suficiente pelo ministério.
• Persuade os seus seguidores de que não lhe pagam ou que não lhe apreciam suficientemente.
• Trata de dissuadir qualquer contato entre algum dissidente e seus seguidores leais.
• Muitas vezes, quando um subordinado termina algo, lhe faz acreditar que podia ter feito melhor.
• É leal com subordinados que têm problemas óbvios de caráter, mas incondicionalmente leais a ele.
• Prefere trabalhar independentemente de outras igrejas, denominações ou missões.
• Seu ministério não é fiscalizado por uma autoridade superior nem responde a tal.
• Trata de expandir o alcance de seu ministério mesmo com uma administração inadequada.
Características de uma vítima
Alguns dos seguintes critérios poderiam se aplicar a uma pessoa abusada por um líder espiritual:
• Envolver-se de tal maneira no ministério que descuida da sua família, seu trabalho e até da sua própria pessoa.
• Preocupa-se de forma crônica em agradar a seu líder.
• É incapaz de ver-se separado de seu líder ou do ministério.
• Recusa-se a compartir preocupações pessoais por temer que seu líder possa saber algo negativo a respeito dele.
• Interpreta o relacionamento com seu líder como o equivalente a um relacionamento ideal com um pai ou uma mãe.
• Faz enormes sacrifícios pelo bem-estar de seu líder.
• Sente que qualquer erro é primeiro uma ofensa a seu líder, e logo a Deus.
• Mete-se em discussões desnecessárias para defender a reputação de seu líder.
• Tem o sentimento crônico de que, quando se encontre com seu líder, sua vida inteira estará exposta diante dele.
• Se cometer um erro, sente a necessidade de pedir perdão a seu líder imediatamente.
• Perde a iniciativa e depende da aprovação de seu líder até em assuntos mínimos.
• Planeja seu dia em função do horário ou demandas de seu líder; os assuntos pessoais são relegados a um segundo plano.
• É muito crítico de outros líderes e ministérios.
• Tem a tendência de pensar, vestir-se, e falar como seu líder; às vezes de forma quase exagerada.
• Sente-se ressentido com Deus por não dar-lhe as mesmas «revelações» que seu líder parece ter.
• Tem enormes dificuldades em dizer «não» a seu líder.
• Quando está a sós, tem a sensação de que seu líder lhe observa.
• Aos poucos se converte em um inimigo ativo e crítico, quando passa a ser um dissidente.

====================================================================================== O autor é professor de aconselhamento pastoral no Seminário Escola de Estudos Pastorais (ESEPA) em San José, Costa Rica. Publicado originalmente na revista Apuntes Pastorales, Desarrollo Cristiano Internacional (www.apuntespastorales.org), e traduzido ao portugués por Pr. David Jones, com a devida autorização da revista.
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